Atualmente somente nos
damos conta da existência do corpo quando ele falha;
isto num processo de dor, doença ou quando ele é
fonte de insatisfações por atribuímos a ele a responsabilidade
por sermos bem aceitos e admirados em nosso ambiente
social.
Mesmo nesses momentos o corpo
é visto como uma entidade separada do eu, como se fosse
possível a ele existir sem as nossas consciências e
inconsciências e a estas existirem sem o corpo. Tal
concepção, na nossa sociedade, tem origem na cultura
judaico-cristã que o vê como fonte de todo o mal,
de todo o pecado. O corpo torna-se ali carne que deve
ser purificada (massacrada, ferida, queimada) para
que a alma se sobressaia.
Apesar de aparentemente
vivermos em um momento histórico em que a religiosidade
não é preponderante, muitos de nós, de formas diversas,
ainda vivemos sob a égide do pecado original, ou seja,
ainda acreditamos que o corpo e por conseqüência a
vida (uma vez que não existe vida conhecida fora do
corpo*) é fonte de dores e privações dos quais somente
seremos “libertados” no momento do “descanso eterno”.
Tal
concepção se reflete em frases como: ”A vida é dura!’
ou “Isto aqui é só sofrimento mesmo” ou “Agente tem
que malhar” ou “Viver é puxar ferro”. Aprendemos que
o corpo é fonte de perigos e sofrimentos quando na
tenra infância somos punidos pelos assim ditos responsáveis
por nossa educação em atividades simples e prazerosas
como por exemplo fazer cocô e se melecar (e ao entorno)
com ele, fazer xixi na cama (quem já fez sabe como
aquele quentinho é gostoso)** ou quando, numa corrida
que desafia nossa recém adquirida coordenação motora,
ouvimos gritos ora raivosos ora desesperados dizendo;”Você
vai cair!!!” ou ainda quando descobrimos que aquela
região entre as pernas se manipulada causa imenso prazer
e alívio para logo em seguida ouvir de um rosto escandalizado:”Tire
a mão daí!” “NUNCA TOQUE NISSO”.
Apesar da aparente
liberalidade atual na nossa formação ainda sofremos
repressões que negam a nossa natureza animal e portanto
nos sujeitam a uma série de distorções que embora em
alguma medida nos tornem adaptados ao ambiente social
também nos tornam incapazes de gozar da vida, ou seja,
ter a felicidade como um presente desfrutado e não
como uma quimera sonhada, relegada a uma infância idealizada(
porque a real é geralmente uma bosta)ou a um futuro
inatingível, como a aposentadoria (Ah, quando eu me
aposentar...) ou então Ah, quando eu morrer e for para
o céu...
Sendo a vida do corpo negada em seu prazer
desde o mais primário momento de formação, o adulto
fruto desse processo terá sempre uma visão objetal
e utilitária do corpo, como os Narcisos de academia,
homens e mulheres, assim ditos e auto intitulados,
belíssimos, saudabilíssimos e em sua maioria, segundo
estatísticas não oficiais: frígidas, impotentes e ejaculadores
precoces ou dotados de uma potência meramente exibicionista
em que o prazer está em ver e ser visto já que a sensibilidade
orgânica para o prazer inexiste. Frutos enfim de uma
sociedade na qual você pode ficar espiando pelo buraco
da fechadura*** mas fazer, ah, isso é feio. Tire a
mão daí seu porco!
Todavia não precisa ser assim.Uma
educação voltada para o humano, com todo o que ele
têm de animal, ao invés de uma educação voltada para
a produtividade e a competitividade pouparia nossas
crianças e jovens de entraves que além de limitarem
a sua capacidade de sentir prazer**** os tornam em
muitos casos improdutivos socialmente. No adulto, o
conhecimento deste processo com todas as suas abrangências
e limitações o torna autônomo em face às regras da
vida, fazendo com que ao invés de escravo delas ele
se torne senhor, de si mesmo e portanto, do universo
ao seu redor.
|
*Deixando de levar em consideração a existência
ou não do espírito, nota-se que a vida espiritual, tal
qual é apresentada em diversas concepções religiosas,
tende a ser ora uma compensação para as frustrações
que aqui devemos viver com resignação ora como uma advertência,
já que o inferno é a mais insuportável das torturas,
e se não forem seguidas as regras certas, mesmo na morte
a punição será maligna! |